Foi no inicio dos anos cinqüenta, que
eu ganhei o Terry Tom. Era um cãozinho acinzentado, peludo, de olhos espertos e
dentes grandes tamanho pequeno com 7 kg aproximadamente . Este nome foi
escolhido por meu pai, e era o nome de um cômico inglês famoso.
Já havia em Porto Alegre, naqueles
tempos muitos criadores de cães puros e com pedigree. E eu na minha ingenuidade,
queria saber a raça do Tom. Ele como nós os brasileiros, era para os cinofilos “SRD”
(Sem Raça Definida). Mas eu dizia a todos que era um Fox pelo de arame, e
parecia! Ao menos eu o via assim.
Foi durante aquele tempo meu melhor
amigo e companheiro. Minha mãe havia aceitado o Tom, na condição de eu alimentá-lo.
Naqueles tempos não havia as rações de hoje. E a comida era feita de véspera
com restos de carne. O ingrediente básico volumoso era o arroz e a polenta. Não
dávamos as sobras, pois possuíamos um galinheiro nos fundos do quintal. A nossa
casa na cidade baixa, em Porto Alegre, era um casarão antigo, cheio de jardins
internos, diversas peças e uma cozinha fantástica. A nossa cozinha, distante da
copa por uma passagem de vitrais sobre uma passagem de 1 metro de largura e quatro
de comprimento de piso de mármore carrara, permitia a distância mínima para
evitar a fumaça provocada pelo enorme fogão à lenha central.
Aquela cozinha teria 25 metros quadrados,
uma caldeira para aquecer os banheiros principais, que mantinha a água quente
dia e noite, tudo com a lenha do fogão que era aceso às 6 horas da manhã e
permanecia até o jantar, 19 horas. Tudo isto, na parte superior que ainda
possuía quatro quartos coligados em arcos e divididos por cortinas. Isto era
muito comum na época, do final do século XVIII até a quarta década do século
XIX, as construções residenciais mantinham os quartos em seqüencia e com arcos de,
5 m. Somente o quarto do casal possuía portas, mas permaneciam abertas para controlar
e vigiar os filhos, durante a noite. Havia um gabinete com uma biblioteca, um
jardim de inverno para iluminar os quartos e o banheiro principal. Este jardim
possuía uma fonte e um lago com peixes dourados e a água era jogada por um
chafariz com boca e cabeça de leão que saiam da parede toda azulejada.
Os dois quartos de hospedes, ficavam do
outro lado juntos aos aposentos dos criados que possuíam copa própria, além de
quartos semelhantes, menores um pouco, que os principais. O maior era o do
casal. A casa possuía dois pisos e o piso de baixo possuía uma enorme sala,
onde meu pai fez uma garagem. O tanque de lavar roupa nos aposentos de serviço
era de tamanho colossal, 2 metros por um de largura e não estava em uso, era a
minha piscina particular.
Instalei o Terry Tom na parte debaixo em um
quarto de dispensa. A cama era um almofadão de sofá. Estávamos juntos em todos
os momentos em que permanecia em casa. Ele era um feroz defensor, de dentes enormes,
arreganhava rosnava a qualquer um que aproximasse de mim.
Meu
amigo Tadeu era um amigo de todas as horas. Filho da nossa lavadeira era um
parceiro de brincadeiras e tinha diversas habilidades. Era afro descendente e possuía
um enorme talento para o futebol, enquanto eu era e sempre fui um perna de pau
e só sabia jogar na defesa para praticar faltas e impossibilitar o gol a
qualquer preço. Até agarrando e dando pontapés nas canelas do adversário. Eu
era ruim, mas, o Tadeu dava-me as coordenadas. Nos jogos de futebol que
fazíamos na redenção nos gramados , que era proibido, mas ao avistar os guardas
municipais nós corríamos embora. O Terry Tom precisava ficar amarrado caso
contrario mordia aqueles com quem eu disputava a bola. Por esta razão fui pego
por um guarda. Não abandonei o Terry e não deu tempo de nós escaparmos, os
guardas me levaram eu e o Terry para a central administrativa do parque. Tadeu
correu a avisar minha mãe.
Após as recomendações e a minha promessa
de não repetir o “ato delituoso”, e da minha mãe ser advertida e ter a
recomendação de punir-me, eles permitiram a minha saída. As minhas orelhas
ardiam, e o Terry havia levado vários chutes por tentar morder o “bola” apelido
de um dos guardas que era muito gordo e lento. Ele é quem fiscalizava a área
que jogávamos. Ele arrastou-me pela orelha 300 metros e com a outra mão puxava
a corrente do Terry, que investia corajosamente mordendo e lanhando as pernas
do guardinha, e este revidava com chutes que estalavam nas costelas e no focinho
do meu cachorro. A sorte é que meu pai era previdente e havia mandado vacinar o
Terry, contra a “raiva”, caso contrario teria ficado no deposito municipal em
quarentena em observação. Precisou de um atestado do médico veterinário, para
libera-lo
O resultado é que cheguei em casa e minha
mãe passou-me o cinto corretivo lanhando-me mais ainda. E o Terry, avançava nas
pernas dela mesmo sangrando e mancando. Apanhei muito! Mas, mesmo dolorido, logo
que pude desci para ver o Terry que gemia baixinho. Sua unha havia sido
arrancada e uma preza estava abalada, sangrava na boca, mas quando me viu
balançou o rabo alegremente e virou de pernas para cima mostrando-me os dentes
como em um sorriso. Que saudades do meu amigo, não dormi aquela noite preocupado com ele.
As minhas habilidades infantis com os jogos
e brincadeiras restringiam-se a andar bem de bicicleta e a jogar muito bem
bolinhas de gude. Na minha região da Cidade Baixa, eu já havia conquistado dois
cestos de natal enormes cheios de bolinhas. Ninguém mais queria jogar com o
trio. O Tadeu, eu e o Terry que ficava a observar bem quieto, levávamos as
bolinhas ganhas dos perdedores satisfeitos e orgulhosos. Não durou tempo para
que ninguém aceitasse nossos desafios. Convoquei o meu sócio e nos reunimos no quarto
do Terry, onde ficava a moca das bolinhas escondidas por tráz de um velho baú
de viagem marítima, com as tralhas e bugigangas de minha avó paterna. Precisava-mos
tomar alguma providência, o Tadeu sugeriu que comprar botões de jogo na fabrica
de puxadores de armário que ficava no fim da linha de bondes do bairro Parthenon.
Lá fomos nós. Adquiri os botões para formar dois times um meu e outro para o Tadeu.
Treinamos no piso encerado da garagem em uma folha de compensado. Tudo comprado
com a venda de pequena parte das bolinhas.
Não gostei daquele jogo, muito lento e sem emoção. Eu precisava da jogada definitiva das aças
(esferas de aço) estralando e quebrando as bolinhas de vidro. Eram as guias as
bolas de arremesso. As melhores eram as esferas de rolimã, as aças e as ossas
feitas de uma massa com pó de osso e cimento branco eram nossas guias prediletas.
A solução encontrada por mim foi
redistribuir as bolinhas com aqueles que sempre toparam os desafios. Esta idéia
tive junto com Terry, que só me olhava e abanava o rabo cheirando e focinhando
na cesta das bolinhas para roer as ossas.Meu sócio Tadeu, topou e saímos os três
a distribuir bolinhas no bairro.
Terry e eu tínhamos tamanha amizade que eu
fazia as lições do colégio no quartinho, junto com ele. Eu repetia a tabuada em
voz alta e ele olhava com a cabeça de lado. Parecia que estava acompanhando e
aprendendo.
O fato é, minha mãe falava alto e
eventualmente me dava uns corretivos com o cinto (Rabo de tatu. Um cinto de
couro grosso, feito a mão por sapateiros.Doía e deixava um vergão) hoje isto
daria manchete de televisão por maus tratos e um enorme processo contra os meus
pais, a intervenção perniciosa do estado a ingerência na cultura familiar é a
formadora da desestabilização social, uma fábrica de irresponsáveis e bandidos.
Mas, eu sei, se não fossem os corretivos maternos e autoridade da educação
religiosa do Colégio Marista, eu não teria estudado e nem mesmo sei se teria
alguma educação se é que tenho. Por estas
investidas, Terry rosnava e demonstrava uma ojeriza raivosa contra minha mãe.
Des de a vez em que levantou o cinto para me bater e ele investiu, tentando
morde-la. Este fato a desencorajou. Mas, começou a política de expulsão do
Terry. Meu amigo levou lambadas, mas permaneceu fiel e apanhando junto, na mais
pura e leal fidelidade,tendo sido o meu real salvador.
Minha mãe buscou fazer as queixas a meu
pai transformando a investida do meu pequeno Terry em uma investida leonina.
Meu pai, sempre foi meu cúmplice. Minha
mãe ,disse falando entre dentes: - Teu pai quer falar contigo no gabinete.
Tremi... na base. Ele falava alto e fazia interjeições - Aquele vira latas
querendo morder a minha mulher, não dá mais, não dá mais. Tenho de dar fim a
esta peste de cachorro. Entrei no gabinete todo borrado e tremendo. Nunca
aquela peça pareceu-me tão grande e eu tão pequeno. No gabinete ele fechou a
porta com estrondo, botou o dedo na boca e falou baixo. Ei! Finge que estou
puxando tua orelha... Berra um pouco... Aí sim, fiz meu teatro: Ai... Ai... Para de puxar minha orelha... Dói muito
e fingia o choro. Tudo com a instrução e apoio do meu pai, eu me senti feliz,afinal tinha o melhor pai do
mundo, o pai que eu admirava e amava, possuía o melhor cão também meu amigo,companheiro e fiel
defensor. Meu pai concluiu: - olha! Vê se faz o Tom balançar o rabo para a tua
mãe caso contrário, não vou conseguir manter esta situação, tendo de sustentar mentiras,dá um jeito no teu cão..vai
e faz cara de choro. Lá fui eu choroso e fazendo a cena direitinha. Vi a cara
de vitoria da minha progenitora,(Naquele momento não era mãe eu a denominei
negativamente como progenitora).Não que não a amasse e compreender-se, mas eu estava exultante e transbordante de felicidade
por meu pai ter estendido a mão, como meu amigo.
Passaram-se alguns meses e a trinca Tadeu, eu
e Tom vivíamos nossos dias de gloria. Jogando gude, indo a matines no cine Garibaldi.
Lá nós vendíamos e trocávamos os gibis. Mandrake, Tarzan, Capitão Marvel, Super
homem e outros. Como eram seções
continuas o Terry Tom, esperava ao lado da bilheteria até sairmos.
Naquele domingo cheguei em casa pelas
cinco horas da tarde. Terry Tom foi para o seu almofadão e eu deveria
providenciar alguma comida para ele .Chegando na cozinha pelo acesso dos fundos,
avistei dois cães dentro de casa. Um era peludo todo branco e entroncado baixinho
o outro era uma cachorrinha branca com manchas amarronzadas, passou longe uma
cruza de fox paulistinha. Não entendi! Mas arranjei um pouco das sobras nas panelas
sobre o fogão ainda quente e levei para o Tom que atacou de vez o prato. Subi e
fui saber o que estavam fazendo aqueles dois cães, dentro da minha casa.
Oi mãe! Ela me olhou e apresentou um casal
de visitantes. Não lembro os nomes, mas eram parentes do meu pai e estavam como
administradores e atores de um circo instalado em Porto Alegre. Minha mãe
falou-me que os dois cães faziam parte de um número do circo e que o treinador
havia doado os dois cãezinhos para o circo. Mas, eles haviam levado como presente
para minha mãe. Fiquei desconfiado e de orelha em pé. Quem não quer um, como
vai querer três? A visitante chamou Fifi vêm! E a cachorrinha pulou no colo
dela. Esta moça tirou da bolsa um paninho, na realidade era uma sainha que
vestiu na Fifi. Minha mãe colocou um disco na nossa eletrola( aparelho de som
da época) com a valsa dos patinadores. Chamou, Leão! e o outro cão se
apresentou. Logo que a musica começou eles se abraçaram e começaram a dançar .
Fiquei maravilhado e imaginei ganhar algum dinheiro com as apresentações se eu
pudesse ter aqueles cães. Mas algo me cheirava mal. Aí, minha mãe falou-me:
Podes ficar com eles, mas o Terry tem de ir embora. Pensei! Levo o Tom para a
casa do Tadeu é só falar com a vó dele,e fico com os três. O meu amigo Tom, e
meus artistas que imaginei poder ficar rico com as apresentações deles.Topei.
Deixei o Tom trancado no porão para que não
brigasse com os outros e fui até a casa do Tadeu. Qual! Todos os familiares choravam
a avó do Tadeu havia batido as botas. Não entrei, retornei para casa. O que
fazer? Falei a minha mãe que buscaria uma solução para o Tom. Nenhum amigo e
nenhum conhecido queriam ficar com ele. E o Terry ficou chorando dia e noite
naquele porão, não comia e demonstrava a visível tristeza.
Precisava
reforma a casa na praia em Tramandaí, levamos a cozinheira e minha mãe deu folga
a copeira. Minha mãe carregou o nosso
entregador de lenha Seu Alberto, a alimentar o Terry. Quando retornamos, fui
direto ver o Tom, ele estava muito mal, nem abria os olhos. Os outros dois cães
estavam bem, pois haviam furado a tela do galinheiro e comido as galinhas. Seu
Alberto, havia sofrido um acidente na Serra circular, onde teve que amputar a
mão, e por ter ficado muito tempo sem socorro ficou em coma por uma semana.
Fiquei desesperado, ao ver o estado do meu querido companheiro Tom, implorei ao
meu pai para levar o cão ao veterinário, foi atendido pelo DR. Ele falou com todas as letras: o cão já estava
sem se alimentar a mais de uma semana, não é? Será difícil reverter o
enfraquecimento, não vai durar muito. Levei Tom para casa e pedi para minha mãe,
para passar a noite com ele, ela disse que poderia levar para o meu quarto, eu
argumentei que não, queria deixar no quartinho que era o canto dele. Ela permitiu.
Coloquei-o no almofadão, já que nem levantava a cabeça. Chorei copiosamente,
com a luz acesa terminei cochilando. Acordei de manhã cedo de sobressalto,
olhei para o Tom, estava com os olhos abertos e parados. Gritei: Tom! Tom! Ele abanou
o rabinho e quedou-se inerte; morreu. Senti
uma dor no coração. Eu sou o culpado, jamais poderia ter abandonado o meu
amigo, ou se quer trocar por outro. Pratiquei alguma coisa e senti esse
arrependimento daquele dia até hoje.
Eu
trai o meu amigo, matei meu companheiro, isso marcou o meu caráter e minha
personalidade.
Jamais
trai quem quer que seja. Nem mesmo falo mal pelas costas. É melhor enfrentar os
nossos julgamentos de nossos amigos e companheiros procurando fazer
pessoalmente, mesmo que eles não aceitem.
A
lição de Terry Tom, que moldou a minha vida e meu atos, causou-me e causa ainda
algumas incompreensões e constrangimentos mas, não faz mal, durmo com a consciência
tranqüila.
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